O Presidente da República escreve-nos, pela segunda vez

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Na sequência da publicação do segundo volume de Floresta Negra, com o subtítulo “Inferno”, o Presidente da República voltou a endereçar-nos uma pequena missiva. “Inferno” foi integralmente produzido na zona de Pedrogão Grande, depois do grande incêndio que transformou indelevelmente toda a zona centro do pais e que causou mais de 60 vítimas mortais.

Senhor Presidente, bem-haja! Muito obrigado!

Era uma vez uma fotografia…

A pergunta frequente “o que é uma boa fotografia” tem, claro, dezenas, centenas ou talvez até milhares de respostas possíveis, todas diferentes, todas “certas”.

Há, contudo, questões centrais que contribuem em boa medida para a percepção de que poderemos estar a olhar para uma boa fotografia:

  • Sujeito. Um bom sujeito é fundamental, muito mais do qualquer outro factor. O que é um bom sujeito? Um recém-nascido, talvez…
  • Ação. A ação que a imagem descreve é crítica. Em bastas ocasiões é pela ação que nos ligamos, quase umbilicalmente, à imagem.
  • Drama. Pode ser um lugar comum, mas a nossa adicção ao drama é quase doentia. Um recém-nascido entubado, em coma induzido, quem sabe às portas da morte, “mexe” connosco.
  • A composição. De infinita opção, quase sempre determinada pelo fotógrafo no momento da captura da imagem. Sem regras, para quem sabe para que servem as regras. Ou com regra, idem. Para dentro da ação, do drama, quase como se dela fizéssemos parte. Claustrofóbica, por vezes.
  • A luz. A mítica luz. Um spot, uma mancha de esperança ou a ténue diferença entre sombra e luz. Raramente nos serve se for plana e quando é, só um grande sujeito a pode destruir.
  • Ponto de fuga. Os olhos precisam de encontrar um escape, uma janela por onde sair, para onde levar o peso do drama, da ação.
  • Fina seleção do ponto de focagem. Transição entre planos com a necessária continuidade. Ou não.

Em coma induzido, um recém-nascido segura a mão da Mãe, agarrando-se a uma vida que lhe parece negada pela condição de que sofre. Morfina. Será que é a Mãe que segura a mão do filho, como se lhe quisesse dar vida, a sua, a que ela já não sente?

Ou não, talvez.

John Gallo, 2011

Para quem ainda acha que o equipamento faz a coisa: Canon EOS 5D, Canon 24mm f1.4L. 1/100, f2.0, ISO 1250.

Cidades desertas

Viseu, Abril de 2020

Ruas desertas, como a minha geração jamais vira – possivelmente poucos seres humanos terão testemunhado este estranho cenário. Domingo de Páscoa, ruas habitualmente cheias de famílias, turistas, o habitual frenesim das compras, do café, dos festivais que animam a cidade, dos passeios de domingo. Gente. 

Ninguém.

Vai ficar tudo bem, dizem-nos, mas porque a vida não é um jogo por agora as cidades estão desertas. 

Vai ficar tudo bem.

Sobre as obras de arte desaparecidas, a total ignorância, incúria e estupidez dos seus “curadores” num país de francos parolos

Das 94 obras de arte que agora – ao fim de anos e anos – sabemos terem desaparecido, ninguém sabe se roubadas, perdidas, extraviadas, 63 não têm qualquer registo, nem mesmo uma fotografia.

É absolutamente intolerável que não se fotografem – de forma profissional, com a iluminação, técnica e normas adequadas e universalmente adoptadas pelos museus responsáveis – TODAS as obras de arte que integram as colecções dos museus nacionais/acervos públicos. Prática obrigatória noutros países, fácil de perceber. Em caso de roubo a fotografia é, bastas vezes, a única forma de identificar a obra. Em caso de dano a reparação só pode ser levada a cabo com sucesso se houver documentação e fotografia devidamente calibrada, com escalas de cor e de cinzentos integradas na imagem. Por último, a fotografia permite a circulação de uma imagem “autêntica” da obra, a sua adequada divulgação e claro, a manutenção de um arquivo devidamente documentado sobre cada uma das peças do acervo de uma determinada identidade.

Em Portugal tenho assistido a tudo, começando por este incumprimento criminoso por parte de quem gere os museus, negligenciando de forma absurda um dever básico, passando pela encomenda de pseudo-fotografias a fotógrafos de vão de escada que, armados com uma qualquer câmara topo de gama fazem registo sem tripé, sem iluminação adequada e sem qualquer tentativa de calibrar cor e gradações de cinza, quesitos absolutamente indispensáveis neste tipo de fotografia. Por último, não poderia faltar o fantástico iPhone a fazer este “registo”. Infelizmente o mesmo se passa com a maioria dos monumentos nacionais, estejam na alçada do poder local ou da administração central.

País de francos parolos, capazes de gastar milhares de euros numa barraca para promover qualquer coisa, ou numa campanha de comunicação para promover um destino ou um museu, ilustrada com fotografias duvidosas, em que monumentos e obras de arte são replicados de forma vergonhosa, inenarrável. Continuem, estão a prestar um belíssimo serviço à nação e a respeitar todos os artistas, arquitectos e visionários que criaram um acervo que é parte integrante da nossa identidade.

A fotografia que ilustra este texto foi produzida de acordo com as normas para o fim a que se destina. Uma das muitas que produzi… no Reino Unido. Esta para o Art Fund.

Reflexos de Natal

O Rossio em Viseu, Natal de 2019

Estas são imagens da época. Trabalhadas de um ângulo diferente, reflexos de uma luz efémera que em Janeiro caduca, cai, volta em Dezembro. No Rossio e nas ruas adjacentes da baixa viseense reflexo de alguns momentos de contemplação, espelhados nos objectos com memória da cidade jardim. Feliz Natal, enjoy the season!

Fotografia de rua

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Fala-se muito hoje de street photography, é um saco onde tudo se mete. Há contudo, não só na street photography bem como em qualquer outra área da fotografia um elemento crítico para que a imagem tenha, de facto, algum valor: o sujeito. Street photography não é fotografia produzida na rua. Street photography é fotografia produzida na rua, cujo sujeito ou ação é relevante, transmite inequivocamente a cultura de um lugar ou de uma cidade e é tirada no momento certo (decisivo dizia Bresson). O resto são cenas de rua, desinteressantes, perigosamente pretensiosas.

Fotografia: London, UK. West London Tales