As demolições na Ria Formosa

hwv021Fossas sépticas na Ilha da Deserta, Março 2015

Em 2014 fui comissionado pelo The Guardian para realizar um ensaio fotográfico sobre as demolições na Ria Formosa. Nunca vivi nas ilhas barreira, não tenho qualquer ligação às ilhas, contudo eu e a Guida Rolo (Chappa) entendemos que era um tema suficientemente sensível, de certa forma trágico até, para que fosse objeto de um trabalho mais profundo.

Não sou parte interessada, posso dizer despudoradamente que o que quer que seja que aconteça nas ilhas não trará nada de diferente para mim ou para os meus – se me limitar à espuma das ondas.

Escrevo de forma completamente independente, como fotógrafo, mas também como cidadão português, preocupado com o que por cá se continua a passar e não posso, porque me predispus a fotografar e a ouvir as histórias de quem lá vive, porque calcorreei as Ilhas de ponta a ponta a pé, porque fui descobrir os cantinhos que só aqueles que lá vivem conhecem, não posso deixar de escrever este texto, agora que as demolições voltaram a estar na ordem do dia.

Este processo arrasta-se há décadas e não tem solução à vista; recorda-me a morte e consequente investigação, comissões parlamentares de inquérito e demais folclore a que assistimos durante anos relativamente à morte de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa e cujo resultado foi o que sabemos: zero. Pródigo, o nosso país, em processos longos, dolorosos e que resultam em coisa nenhuma.

Temo, porque todos os sinais apontam no mesmo sentido, que a conclusão deste processo de demolição de algumas casas nas ilhas barreira, tenha o mesmo resultado, isto é, resultado nenhum. Creio, e não estarei enganado certamente, que nada resultará desta vertigem de demolições aleatórias e insensatas a não ser o facto de algumas dezenas de famílias perderem o seu lar, com todas as consequências trágicas daí decorrentes. A esmagadora maioria das famílias mais ameaçadas são as que têm menos posses, menos recursos, que mais dificuldade têm em lidar com os expedientes intermináveis da Polis Ria Formosa. Da documentação que consultei quando escrevi o artigo inicial em 2015 facilmente depreendi que a Polis não olha a meios para atingir fins, errando porque lhe é conveniente, não esclarecendo, não tratando os residentes da ilha como cidadãos de pleno direito, agindo bastas vezes de forma incoerente – típico na maioria deste tipo de organismos em Portugal.

Os planos e projetos disponíveis para consulta no site da Polis Ria Formosa são generalidades e não podem deixar ninguém descansado relativamente ao que realmente se prevê realizar nas ilhas barreira.

Do que observei e aceitando como importantes os argumentos que alicerçam a intervenção da Polis, tudo ou quase tudo contradiz essa argumentação.

Os edifícios em pior estado de conservação (alguns em ruínas) na Ilha da Culatra são os edifícios que pertencem ao Estado português. A lógica de demolição nada tem de ambiental – casas vizinhas são demolidas, deixando no mesmo perímetro edificações existentes. Esta incoerência está bem patente na Ilha de Faro, para quem quiser ver com os seus próprios olhos. Entulho e resto de fundações, canalizações e similares são deixados pela Pólis no local, não sendo devidamente recolhidos – como seria expectável. As habitações existentes no núcleo dos Hangares, que não tem energia elétrica, são autossuficientes – geram a sua própria energia, tratam os seus resíduos e utilizam furos para obter água potável – talvez uma lição ambiental para alguns de nós…

Há locais em que as fossas sépticas, depois de demolidas as habitações, permaneceram – e assim estão há dezenas de anos, nada tendo sido feito pela Pólis para remover esse entulho. Quando a Polis vence uma ação em tribunal, ganhando posse administrativa de uma habitação, remove telhado, portas e janelas, deixando paredes em pé, por vezes durante meses, não agindo com a celeridade esperada para devolver ao estado inicial o respetivo lote. Não valerá a pena continuar, já se percebe o que pelas ilhas se passa.

Não me interessam as questões legais – entendo que as haverá, que muitas habitações são ilegais e concordo, até encorajo, que haja uma intervenção nas ilhas barreira. Uma parte das edificações existentes tem um efeito perverso na paisagem e no ambiente, há muito a fazer para equilibrar o habitat nestas ilhas que são autênticas pérolas da natureza e que a intervenção humana desordenada tem estragado. Contudo, qualquer solução que não integre quem lá vive, que não integre uma comissão independente que possa colocar em cima da balança os interesses legítimos dos moradores e do Estado, que não integre as autarquias e que não integre um plano detalhado e transparente, resultante de aturadas conversações, estudos e análise de opções para o futuro das ilhas, não será uma solução. Será, tal como tem acontecido desde o início desta novela, um conjunto de medidas desconexas cujo resultado ninguém conseguirá antecipar e que, não tenho dúvida, deixará as ilhas barreira em situação muito pior do que aquela em que se encontram neste momento.

http://www.johngallo.co.uk/a-home-with-a-view.html

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/21173/algarve-destruir-para-dar-lugar-ao-turismo

 

 

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