Trump, o milagre americano…

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Disse desde o primeiro momento que Trump ganharia as eleições nos Estados Unidos. Não adianta achar que o povo é burro – longe disso – ou que Trump é um oportunista (é muito provável que seja só isso mesmo). Lamento se para a classe política americana é difícil perceber, se para economistas laureados tudo parece um pesadelo, se para a imprensa é duro tentar explicar aquilo que horas antes era dado como absolutamente impossível. A simplicidade da eleição de Trump resulta da insatisfação de um povo que já não se revê nos políticos e na política de sempre, no establishment. Mas este não um divórcio intelectual, longe disso – é um divórcio material, é uma relação que se quebra por razões básicas de subsistência, de dignidade, de esperança num futuro digno para os filhos. As mudanças sócio-económicas introduzidas pelo avanço irredutível da globalização, pelos fluxos migratórios recorrentes, pela agudização das desigualdades e inexplicável distribuição de riqueza, o alheamento grosseiro dos políticos face às questões prementes do quotidiano dos cidadãos, o desenvergonhado enriquecimento da classe política e de muitas empresas americanas, o recrudescimento dos offshores, a má gestão da falência e resgate de instituições bancárias e a bolha imobiliária, levaram a que os americanos decidissem abrir a porta a quem – ainda que de forma patética, quase absurda – lhes promete resolver este conjunto intrincado de questões de forma simples, devolvendo-lhes a qualidade de vida perdida por entre o sonho e o pesadelo americanos. Se de algo podemos acusar o povo americano é de ingenuidade, apenas isso. Talvez a mesma que levou os alemães a elegerem Hitler num momento menos sábio ou mais ingénuo da sua história.
Este emergir de um magnata pouco preparado para a tarefa é da única e exclusiva responsabilidade da classe política que tem governado os Estados Unidos nos últimos vinte anos e da desertificação das cidades provocada pela globalização, o que resulta na falta crónica de empregos dignos para boa parte da população. Não há contudo lugar para demagogia: para resolver as questões que deram a Trump a presidência é necessária uma política coerente, acertada entre a esmagadora maioria das nações do planeta, especialmente aquelas que têm mais peso no comércio mundial e isto seria apenas o princípio. Se é fácil compreender porque votaram os americanos em Trump, é sobremaneira difícil acreditar que ele é o homem certo para cumprir com o desígnio que o elegeu. A facilidade com que promete resolver o que preocupa os americanos carrega a mesma incompetência com que os seus pares governaram a nação americana nas duas últimas décadas.
Trump será mais um, apenas isso, vergado ao poder dos lobbies, gerindo os interesses de muito poucos, afagando o pelo das elites e aumentando a sua fortuna pessoal de forma substancial. Que descansem os mercados, o establishment continuará firme e hirto no coração da governação em Washington, muito pouco ou nada mudará realmente na vida dos americanos que elegeram Trump.
A esperança de quem elegera um presidente negro uma década antes esvaiu-se no sangue dos afro-americanos pobres ou de classe média barbaramente assassinados pela Polícia nas ruas de tantas cidades da “maior nação do mundo”.
Let’s make America great again.

Publicado por John Gallo

I am a social documentary photographer, videographer and writer. I believe we need to focus on people, on human beings; we need to humanize the planet, to change our relationship with Nature and assure next generations a much brighter future. Winner of the 2015 The Guardian/Royal Photographic Society's Joan Wakelin Award. Sou fotógrafo sócio-documental, ensaísta e escritor. Acredito que o nosso foco têm que ser as pessoas; urge humanizar o planeta, alterar a relação que temos tido com a Natureza e garantir que não hipotecamos o futuro dos nossos filhos. Em 2015 o jornal The Guardian (UK) e a Royal Photographic Society distinguiram o meu trabalho atribuindo-me o Joan Wakelin Award.

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