A minha bola de Natal (gigante)

Ontem fui acossado por uma vontade absolutamente inexplicável para fotografar as luzes de Natal na cidade. Em jeito de confissão disse ao Luís Belo que me apetecia apenas e só, para variar, quem sabe, produzir um punhado de fotografias “bonitas” sem qualquer significado, apenas reproduções mais ou menos fiéis da realidade, cheias de cor para a malta nas redes sociais colocar likes até fartar. Nostalgia? Estaria o meu inconsciente a navegar pelos Natais de há 40 anos, em que as luzes de Natal penduradas no pinheiro cortado à socapa no Pinhal de Leiria e trazido para casa meio dentro meio fora da carripana dos velhotes faziam as alegrias de um puto ingénuo, ansioso pelo bacalhau, err.. pelas prendas da noite de consoada? Talvez…

Saltei para a rua armado com 8 lentes, dois tripés, dois flashes, onze baterias e dois corpos, tudo muito arrumadinho dentro do Lowepro, cheio de orgulho por ter voltado a sentir grande entusiasmo para produzir meaningless photography. Em jeito de piada podia dizer que passados uns minutos as costas já não aguentavam, mas não – para alguma coisa me vai servindo o cabedal e o hábito. Vencido o frio, ou melhor, vencido pelo frio, montei a barraca na Praça da República à volta da bola de Natal gigante que por lá parou este Natal. Bem bonita, pensei – ora, cá está o miúdo outra vez…

À volta, dentro, fora deste objecto andava a malta dos telefones espertos a tentar levar para casa um recuerdo empastelado e sensaborão, papás implorando aos putos para não se mexerem mesmo nadinha durante largos minutos – tentando vezes sem conta apanhar a pestinha nítida, e não um borrão galáctico, porém não percebendo que, de todas as vezes que a foto não fica em condições, a responsabilidade não é da criança, mas sim sua: entenda, de uma vez por todas querido pai: um canivete suíço não dá para desmanchar um porco. Depois de algumas dezenas de tentativas lá aparecia um boneco suficientemente  sofrível para ser mostrado como fabulástico quando visionado no écran minúsculo de tal aparelho “esperto”…, perdão produzido por espertalhaços, especialmente aqueles a quem falta um pedaço da maçã e que a vendem como inteira. Havia também uns quantos turistas do género “fui lá para fora aqui mesmo” de compactas na mão, daquelas que já fazem uns bonequitos mais em conta e, claro, a malta das DSLR, pequenas, grandes, médias, com lentes mais ou menos caras e mais ou menos fálicas, quiçá algumas trazidas pelo Pai Natal num desses Natais em que parecemos amiúde miúdos. Até um fotógrafo de profissão lá apanhei, de grande DSLR, capaz de congelar o movimento de uma rajada de G3 (soam como uma) e por momentos pensei que a bola se ia mexer, desandar dali para fora à velocidade da luz, deixando todas as esperanças de uma foto decente nas mãos daquele profissional equipado a rigor – até um assistente para levar o tripé ele levara, sabe-se lá porquê mas à noitinha as fotos tendem a ficar tremidas.

Foi neste preciso momento que voltei à terra, ao planeta Terra, e caí de cabeça, ainda cá tenho o galo – não sei se ficará até à meia-noite do dia de Natal e se cantará, mas a realidade dói à séria. Afinal, o que eu tinha estado a fazer enquanto preparava o tripé, enquanto escolhia aturadamente que lente usar e em qual dos dois corpos (exatamente iguais) pegar, era o habitual exercício de observação – aquilo que sempre faço quando me armo em fotógrafo. Lá estavam os pares de namorados, muito juntinhos, quietinhos, a trabalhar para selfie, a malta mais nova a disparar para todo o lado à procura da selfie mais extraordinária-fantástica-impressionantemente-cool-fixe-a-minha-é-mais-fixe-que-a-tua, os atletas de fim de dia à volta da bola aos saltinhos – até me pediram para lhes tirar uma foto com um dos aparelhos do demo – e as crianças pela mão dos pais, loucos de alegria por poderem andar aos saltos dentro e fora de uma bola de Natal tão gigante que nem sequer cabe na sala, nem na garagem, nem em nenhum outro lugar.

Percebi que ia usar apenas duas lentes, um corpo e um tripé – ou seja, podia ter poupado a mim próprio a triste figura de parecer um novato excitadíssimo com toda a tralha fotográfica que acabara de receber agorinha mesmo vinda do ebay e, claro, poupado as costas que não me doiem mas que me vão doer mais dia, menos dia – isso mesmo, poupança não é aplicável apenas a dinheiro.

E fiz umas quantas fotografias – com enorme prazer, porque são fotografias acerca do objeto, da relação deste objecto estranho com os outros (objetos) que o circundam, para o qual abrem espaço nesta altura do ano, fazendo-lhe a educada vénia e respeitando-o como uma estrela meteórica, cuja ascensão e queda nada mais é do que isso mesmo, meteórica. Os outros, aqui vivendo há mais de um século, observam-no com a sapiência dos velhos, dos velhos sábios, invejando-lhe as cores, o séquito de gente à sua volta, mas sabendo a miséria a que está condenado depois do fatídico Dia de Reis. Para o ano outro virá, ocupando o mesmo lugar, atraindo a mesma gente, iluminando o rosto das crianças, abrindo-lhes o sorriso com a caduca luz do Natal.

Trabalhei à volta desta gigante bola sabendo-lhe o destino, sussurrando ao ouvido das árvores centenárias por ali erguidas faz muito, que era com elas que me importava, são elas as grandes matriarcas deste espaço, iluminadas pela luz plana, desinteressante, discreta dos candeeiros lindíssimos que partilham este espaço assente em nobre calçada, portuguesa, que outra poderia ser, se não essa, a nossa, de orgulho feita por quem sabe e são cada vez menos os que sabem. Quem sabe, se alcançado o estatuto de Património Imaterial da Humidade a Calçada Portuguesa regressa às cidades portuguesas e ao mundo, admirada pelo mesmo povo deslumbrado por uma bola (gigante) e pelas luzes de aniversário do Menino Jesus.

Em cena entraram também as cenas da vida antiga, figuras alegóricas do mundo rural beirão, trazidas à liça pelo Mestre Joaquim Lopes; ali fazem vida desde 13 de Dezembro de 1931 – também elas de olhos postos no gigantismo de uma bola que, por breves instantes,  lhes tolda a vista do Município.

Fotografei de dentro para fora uma alma vazia, mas cheia de luz, todos a querem ver, fotografar; fui descobrindo o Rossio em redor de uma efémera bola de Natal, revelando aqueles que com ela foram interagindo, sem notarem um observador motivado pela estória daquele espaço rearranjado a preceito de Natal. Acabei por contar uma história, tão efémera como a bola que ela própria retrata – na escala das coisas grandes e pacientemente mutáveis não há lugar nem para bolas, nem para Natais.

Da minha vontade de fazer umas quantas fotografias de época, fica a estória de um objeto de beleza apurada, com vida alinhada pelo fim do calendário; fica o registo da sua relação com um espaço que brevemente será devolvido à nobreza de quem o faz viver durante todo o ano.

Feliz Natal!

 

 

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